UM BARROCO MODERNO E TROPICAL

Artigo publicado em: Jun 30, 2026
UM BARROCO MODERNO E TROPICAL

Maria Lago sobre o lugar da sua Patuá, em Preciosa, entre arte, memória e o sagrado

Não me definiria jamais como minimalista. Estou mais perto do barroco contemporâneo do que das casas inspiradas na pureza estética escandinava. Um barroco moderno e tropical, porque afinal de contas eu sou brasileira, e neste lar o Brasil se vê, sente e cheira em todas as partes.

Quando me mudei de Nova York a Madri em 2020, busquei um espaço que pudesse transformar não só em lar, mas em templo de beleza e memória, onde arte e design convivem em harmonia com a História. Encontrei um amplo apartamento antigo, lindamente reformado no centro da cidade, que atendia a essa demanda com suas características originais de época e muita luz natural. Aqui, objetos herdados se misturam a lembranças de viagens por culturas diversas, excentricidades, muitos livros, presentes de amigos artistas e uma coleção de sapatos que não tenho coragem de mostrar. Cada objeto tem um significado, uma vida própria e uma história para contar, e juntos, em cores, texturas e formas variadas, formam um certo acúmulo que funciona em conjunto.

Ao receber a minha Tigela Patuá, peça exclusiva da OMAMA produzida em madeira maciça Preciosa, meus olhos brilharam com a forma, a cor, a textura, o cheiro e o primor estético. O cheiro, aliás, surpreende: uma nota discreta de canela e cravo, própria dessa madeira. Não saberia definir se a peça é um múltiplo de arte ou de design, mas, para mim, chegar a essa forma requer muita arte e sensibilidade para escutar e sentir o material. Sempre amei materiais naturais como madeira e couro, e, crescendo no Brasil, desenvolvemos este conhecimento e gosto ao estar organicamente imersos na natureza. A relação da natureza com o sagrado nos é dada desde pequenos.

Minha Patuá encontrou seu lugar na mesa de centro vintage de vidro com base em acrílico dos anos 70, ao lado de uma obra em madeira da artista franco-argentina Claire Santa Coloma e de outra do artista brasileiro Ivan Grilo. Nessa mesma mesa há uma espécie de altar com obras em madeira do interior da Bahia, criadas por diferentes artistas e artesãos, que representam alguns Orixás. O nome Preciosa, aliás, não é à toa: a casca dessa árvore foi, por séculos, uma das matérias mais valiosas da Amazônia, e a peça parece carregar essa memória no jeito como se acomodou entre os meus objetos de afeto. A Preciosa conquistou espaço na minha mesa-altar, elevando ainda mais a beleza e o sagrado deste canto da casa.

Por Maria Lago
Editora de livros de artista. Fundadora da FAMILIA EDITIONS

Artigo publicado em: Jun 30, 2026